8 Perguntas: Niper Boaventura (Ego Kill Talent, Pulldown, Dahouse)

Miguel Boaventura Jr. ou Niper como conhecemos é ​um produtor e músico lá de Erechim/RS.

Por anos Niper esteve a frente do Pulldown e hoje completa o time de “multi-instrumentistas” do Ego Kill Talent, a mais promissora banda de rock nacional (que tem em sua formação ninguém menos que Jean Dolabella, ex-Sepultura/Udora/Diesel).

Há um bom tempo Niper atua também em produções publicitárias e em trilhas para longa e curta-metragens por trás do Dahouse Studio e tem seu trabalho expandido por diversos meios.

Abaixo estão as “8 Perguntas” que fizemos ao nosso amigo.


Mix and Fix “1”: Fala Niper, tudo bem? Conta pra gente como tudo se desenvolveu até chegar aqui…De quando você pegou um instrumento na mão pela primeira vez até hoje.

Niper: E ai! Valeu pelo convite! Meu interesse por fazer música surgiu quando ouvi Nirvana pela primeira vez. Eu queria ser o Kurt Cobain. Isso foi por meados de 95. Meu primeiro set foi um baixo Aria Pro II cor vinho e um “cubo” Staner BS 120. Virei baixista pois a banda que formei na época com os amigos já tinha guitarrista e baterista. Ah, eu era o vocalista também. Sempre cantei em casa, sabe aquele lance: “Filho, canta pro seu tio ver?”, comecei por ai.

A necessidade de gravar umas demos e minha inquietude com a tecnologia me fez aprender sozinho como gravar. Meu primeiro DAW foi o Cubase, antes disso eu gravava um take em cima do outro no SoundForge com um Shure 58 Beta que ganhei do meu Pai. Aprendi tudo errando e fuçando muito, não haviam tutoriais e youtube na época. Hoje meu DAW principal é o Pro Tools e estou muito interessado no Reaper.


Mix and Fix “2”: Como tá sendo essa nova empreitada no Ego Kill Talent? O fato de todos trocarem os instrumentos originais faz com que você tenha que se aprofundar um pouco mais nos outros instrumentos, mesmo que não seja o que você vá tocar?

Niper: Eu sempre toquei baixo e a guitarra veio logo na sequência, tenho eles na vida há uns 20 anos. É muito divertido tocar os dois em uma banda, porém nos primeiros ensaios foi estranho sair da guitarra para o baixo, as medidas das cordas são muito diferentes. Sobre essa mistura no EKT, ela acontece naturalmente, quem estiver com o instrumento na jam/composição acaba ficando. O Rapha, por exemplo toca guitarra e tá querendo tocar em algum som do show, então logo deve surgir alguma música com ele. Tocar bateria acho que vai ser difícil, o nível ali é alto demais, hahahaha.


Mix and Fix “3”: Você é guitarrista e também produtor. No que uma coisa influencia na outra na sua opinião? Um produtor não necessariamente precisa ser músico e vice-versa. O que você enxerga de melhor em ser os dois?

Niper: A maior influência é na execução do instrumento. Ter tocado ao vivo por muito tempo e gravado muito me dá uma perspectiva do que o músico que estou produzindo precisa fazer pra chegar onde ele quer. Gravar não é uma ciência exata, com o passar do tempo você vai sacando uns “hacks” que só quem toca aprende. Ser músico ajuda muito também nos arranjos e escolha de repertório, onde pra mim, começa a mixagem da canção. Eu não trabalharia com um produtor que não arranha pelo menos alguns acordes.


Niper pilotando as gravações do disco do Pulldown


Mix and Fix “4”: 
Falando aquele papo mais nerd do audio, Quais são os seus plugins (ou hardware) favoritos? E em que você mais os usa?

Niper: Você sempre vai encontrar em minhas mixagens o SSLChannel, SSLComp e o L1 Limiter. Eu já fui o cara que empilhou muitos plugins nas tracks, hoje estou mais de boa, trabalho com o que chega e tento não mudar as características do que foi gravado. Tenho assinatura do MixWithTheMasters e isso me abriu muito a cabeça vendo os meus ídolos usando EQ, Compressão e Reverb pra fazer os meus discos favoritos. Vou aproveitar a pergunta pra falar dos plugins do Joey Sturgis, comprei o bundle bem barato e é muito legal! Vale pesquisar.


Mix and Fix “5”: Sobre trabalhar com audio/música para o mercado publicitário; Quais as vantagens que essa forma super “dinâmica” de trabalho traz pro seu desenvolvimento profissional como produtor?

Niper: Esse mercado também me ajudou a simplificar as coisas. Uso basicamente o mesmo template pra tudo, me dá mais velocidade pra entregar. Quando posso, gosto de mixar em um dia, dormir e ouvir no outro dia cedo em todos os lugares possíveis. É raro, mas às vezes acontece. No final dá tudo certo, confio no instinto e não rodo muito lâmpada. Com o passar dos anos é preciso respeitar suas primeiras impressões, acho que esse foi o maior passo que dei na minha carreira: confiar naquela “primeira subida de faders”.


Mix and Fix “6”: Conta algum truque de mix que você utiliza sempre e pra você é infalível.

Niper: Não sei se é bem um truque, mas tiro 4khz de todas as guitarras distorcidas. Outra coisa que comecei a usar muito foi processamento de Mid/Side, uso o incrível Pro-Q da FabFilter.


Mix and Fix “7”: Diz pra gente a sua lista de preferidos e porquê: Microfones; Produtores; Mixadores;

Niper: Não vivo sem o SM7, AKG 414 e Shure 57. Na DaHouse usamos muito o mic alemão Phantom Classic da Brauner, o qual comecei a gostar bastante pelo carinho que ele tem com os graves.

Produtores tenho vários: Lucas Mayer, Lou Schmidt, Steve Evetts, Butch Vig, Sylvia Massy, Randy Staub, entre outros.

Mixadores curto muito as coisas do Andy Wallace, Rodrigo Deltoro, Andre Kbelo, Randy Staub, entre outros.


Mix and Fix “8”: Uma vez que trabalhei em uma produção no Family Mob Studios; durante um papo com o Jean, ele nos mostrou o primeiro EP do Ego Kill Talent (que tinha voltado da masterização aliás) e tava me dizendo que não havia nada de sample ou overdub de batera no disco, além de ter sido gravado inteiramente de forma analógica.

Na contramão disso, sabemos que o Metal (estilo que o Pulldown toca e que o EKT flerta bastante) é um gênero totalmente dominado por samples “perfeitos” de bumbo e caixa pelo menos. Qual a sua posição sobre esses artifícios da “música moderna”? Pra chegar no som ideal vale tudo ou você acha que samples “mascaram” o som real do instrumento?

Niper: Eu não descarto o uso de samples. Tudo que faça a música soar como você gostaria deve ser usado. Muitas pessoas não têm orçamento ou condições de gravar com um bom baterista em uma boa bateria. Isso não deve impedi-las de produzir seu material. Aposto muito no fator humano das gravações, o EKT é uma banda muito ensaiada e têm músicos muito competentes, o som todo vem disso. Há uma parte conceitual importante que é um dilema pra muitas pessoas, porém você não deve entregar um material medíocre por acreditar numa ideologia. O importante no final das contas é a canção. Admiro muito produtores que tiram um sonzão sem samples na bateria, é uma arte, algo que demanda muitos fatores alinhados. Não deixo de ouvir algo que tem samples, só fico triste quando a interpretação do baterista é arruinada. No geral, o “depois eu arrumo/somo/vejo/edito/afino” é o maior veneno da produção de audio.